quarta-feira, 5 de julho de 2017

Esconde-esconde


Esconde-esconde

A felicidade rondava minha casa, ensaiava bater à porta e de repente parecia desistir. À espreita na janela eu acompanhava seus movimentos, ansioso, até o dia em que resolvi parar de persegui-la. Assim acabei me acostumando a levar a vida de forma serena, sem esperar grandes rompantes de alegria. Tudo ia bem até o momento em que fui surpreendido pelo toque da campainha. Abri a porta e ela saiu correndo como um relâmpago, mas a essa altura eu nem me preocupava mais em tentar agarrá-la, pois já havia aprendido a me divertir com essas aparições inesperadas. Tranquilamente a vida seguia seu rumo, fechei a porta, as cortinas, não havia motivo algum pra desespero. Eu sabia que logo ela faria outra visita surpresa, ela sempre volta.

[Mente Hiperativa]

quarta-feira, 3 de agosto de 2016

Só mais uma


Só mais uma

No cassino do amor era aquele jogador habilidoso que sabia quando e onde apostar suas fichas, distribuía as apostas com perspicácia e quase sempre ganhava o prêmio. Com um olho no jogo e o outro nos concorrentes, dificilmente algo lhe escapava. Podia sentir o clima da partida pela respiração dos concorrentes, os olhares trocados revelavam suas angústias e desejos inutilmente disfarçados. Preparava-se, então, para o momento certo que o levaria a mais um desfecho brilhante, especulava a melhor jogada e pá, vitória certa!

Com seu talento notável conquistou várias partidas, mas como todo bom jogador nunca soube a hora de parar. Jogava compulsivamente e à cada aposta sentia prazer ao saber que era tudo ou nada, que poderia perder toda sua conquista, mas era justamente esse risco que alimentava-lhe a alma. A cada vitória era tomado pelo desejo de vivenciar novamente aquela sensação e à cada derrota a dor o fazia jurar que jogaria só mais uma.

E como um vício que jamais tem fim ele virava as noites nos cassinos da cidade colecionando prêmios cobiçados e perdendo tudo em seguida, sempre voltando à mesa pra vingar seu orgulho ferido. O ciclo de prazer e dor se mantinha vivo e o motivava nesse jogo de roleta, cartas e amor. Eram fichas e mais fichas, o coração ia a mil em apenas um segundo, quase saía pela boca, mas mantinha-se vivo por pura vontade de vencer, só mais uma.

[Mente Hiperativa]

domingo, 24 de julho de 2016

A morte: fatalidade ou escolha?


A morte: fatalidade ou escolha?

E se a morte não existisse e cada um determinasse o instante do seu fim? Em que momento você ia querer parar? Aliás, você ia querer parar? Teria que ter coragem ou motivo suficiente pra encerrar a vida, já que por conta própria ela jamais acabaria. Parece surreal, mas será que não é assim que ocorre?

A morte é o grande mistério da vida, será que temos o poder de determinar nossa causa mortis ainda que sem ter plena consciência disso? Através das nossas experiências, consumos, modo de vida, exposições e circunstâncias?

O tabagista que morre de câncer, o imprudente que morre no trânsito, o glutão que morre de infarto, o relapso que morre por descontrole de sua enfermidade, o irresponsável que morre no acidente de trânsito, o bandido que morre pelo crime.

Será que no fundo a vida não quer acabar e cada um de nós que a provoca e a deixa sem saída? No final das contas parece que o suicídio não é algo tão incomum, ao menos partindo do pressuposto de que ele pode ser longo e calmamente arquitetado durante toda uma existência. Não é preciso morrer rápido pra concluir que se matou, nos matamos no dia a dia, à cada cigarro tragado, à cada discussão de trânsito, à cada raiva guardada, matamos um pouco de nossa vida à cada traição, mentira ou extravagância alimentar.

A vida vai se acabando, se arrastando, e o último golpe será sempre considerado o culpado. Mas na verdade tivemos tempo suficiente de planejar o crime perfeito, muitas vezes o primeiro e último de toda uma vida.

[Mente Hiperativa]

domingo, 5 de junho de 2016

Aquele vazio não era fome


Aquele vazio não era fome 

Quem é você que nunca sentiu o estômago gelar por alguém? Você que nunca teve medo de quebrar a cara. E quebrou bonito.

Você que nunca se jogou de olhos fechados no escuro desconhecido. Nunca se entregou na primeira vez como se já fosse a milésima.

Se você nunca arriscou pra petiscar, se nunca sentiu indigestão após se banquetear, você não sabe o que é passar fome de amor.

[Mente Hiperativa]

sexta-feira, 3 de junho de 2016

Tempo de pipa


Tempo de pipa

Em céus de pipa não voam mais crianças como antigamente. O sol brilha como sempre, mas agora os papagaios não procuram mais as crianças pra brincar. As bolas de gude rolam para dentro de formigueiros em busca de diversão. Peões rodam e rodam, tontos, em busca do que é belo e vulgar. Vivemos o tempo da preguiça.

O sol, o algodão doce e as bolhas de sabão desfilam no céu, mas as pipas não se encontram mais com as crianças. Um dia quem sabe as coisas voltem a fazer sentido, talvez as pipas voltem a puxar as crianças pelo cordão e então o mundo volte ao normal. Um dia, quem sabe...

[Mente Hiperativa]

quarta-feira, 17 de fevereiro de 2016

Se(nti)r humano


Se(nti)r humano 

Saudade é o desejo de iludir-se,
de sentir novamente que tem
mesmo sem jamais ter tido.

[Mente Hiperativa]

segunda-feira, 16 de novembro de 2015

O suficiente


O suficiente

   Só, apenas, somente,
       simplesmente
        o suficiente.

Basta a mim o que tenho
   Não preciso de mais.
          É demais!

        Pra que tanto,
        se o suficiente
        é tão eficiente?

   Às vezes me pergunto
    (e não me respondo)
  porque eu quero tanto?

[Mente Hiperativa]